O inverno de 2026 chegou às ruas brasileiras com um repertório bem diferente da estética minimalista que dominou as últimas temporadas.
As passarelas internacionais indicam um caminho mais expressivo, com volume, textura e um toque histórico que se mistura ao guarda-roupa do dia a dia, ao mesmo tempo em que o varejo nacional segue de olho no comportamento cauteloso do consumidor.
Cintura marcada e alfaiataria com atitude
Uma das apostas mais fortes da estação é o retorno da cintura alta posicionada logo abaixo do busto, acompanhada de volumes na altura do quadril. Nesta temporada, várias coleções apostam na cintura império, junto de volumes na região do quadril, como basque ou peplum, em um efeito que traz leve referência a trajes históricos sempre misturada a peças atuais, podendo aparecer com jeans ou alfaiataria relaxada. A leitura contemporânea evita o exagero teatral e aposta em combinações do cotidiano.
A alfaiataria também ganha uma versão mais sensual. Blazers estruturados e ternos de corte preciso recebem uma leitura mais atual, seja pelo decote profundo, pelo uso direto sobre a pele ou pela mistura com saias fluidas e vestidos leves, equilibrando um ar clássico com proporções alongadas.
Texturas em primeiro plano
Se em temporadas anteriores a superfície das roupas era discreta, agora ela vira protagonista. Casacos inteiros cobertos por lã, pelúcias volumosas ou materiais que lembram teddy coats trazem uma dimensão tátil forte às coleções, indo além dos punhos e golas e dominando a peça inteira em volumes generosos. O jogo de camadas segue na mesma linha: vestidos sobre saias, casacos sobrepostos e tricôs que deixam outras peças escaparem por baixo compõem o visual da estação.
Outra frente que ganhou força nas coleções internacionais mistura delicadeza e uma pegada mais urbana. Vestidos longos de renda, transparências delicadas e camadas de babados trazem uma estética boêmia, com mangas amplas, golas altas e saias fluidas, combinadas a botas pesadas ou óculos escuros para evitar um resultado fantasioso demais. Em contraste direto, algumas marcas recorreram a referências de uniformes militares e macacões utilitários, com ombros estruturados e bolsos amplos.
O que isso significa para o varejo brasileiro
No Brasil, essas tendências chegam adaptadas ao clima nacional e a um cenário de consumo mais cauteloso. Segundo estimativas do IEMI, Inteligência de Mercado, o varejo brasileiro de vestuário deve movimentar cerca de 1,85 bilhão de peças e faturar R$ 63,34 bilhões durante a temporada de outono e inverno de 2026, entre maio e agosto, um avanço de 4,2% em faturamento sobre o mesmo período do ano passado, ainda que o crescimento em volume de peças seja bem mais discreto.
Para o economista Marcelo Prado, diretor do IEMI, o setor de vestuário tem buscado um equilíbrio entre recomposição de vendas e controle de estoques, com expectativa de crescimento em valor, mas avanço moderado em volume, o que mostra que o mercado segue em recuperação gradual e com forte competição. Essa cautela explica por que as marcas têm priorizado peças versáteis em vez de apostar pesado em looks de efeito único.
Edmundo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil, explica que as empresas trabalham com mais cautela na formação de estoques devido à variabilidade do clima em diferentes regiões do país, o que reforça a aposta em itens como tricôs leves, jaquetas, moletons e sobreposições, que funcionam tanto em dias amenos quanto em picos de frio mais intenso. Fernando Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, acrescenta que o país segue sendo um desafio para o planejamento do setor por ser predominantemente tropical, com temperaturas acima da média impactando diretamente o desempenho das coleções de inverno.
Na prática, isso quer dizer que as tendências internacionais de textura e volume aparecem no Brasil filtradas por peças de meia estação, que aliam o visual em alta com a necessidade de funcionar num país onde o frio varia muito de região para região. Tricôs chunky, sobretudos estruturados e jaquetas com forro de pelúcia dominam as vitrines, enquanto animal print e cintos largos completam o visual nas produções de rua sem exigir a troca completa do guarda-roupa a cada semana mais fria.
Fontes consultadas: ELLE Brasil | Central do Varejo | FashionNetwork Brasil