Segundo Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, há alguns anos, falar em créditos estressados no Brasil evocava imagens de operações obscuras, carteiras problemáticas e riscos que poucos se dispunham a calcular. Esse tempo passou. O que antes era território de especialistas de nicho tornou-se, progressivamente, uma das classes de ativos mais monitoradas por gestoras, fundos de private equity e investidores institucionais que buscam retorno descorrelacionado em um ambiente macroeconômico de alta complexidade.
Se esse segmento ainda não está no seu mapa de oportunidades, a leitura a seguir pode mudar isso!
O que tornou os créditos estressados uma classe de ativos legítima?
A legitimação dos créditos estressados como classe de ativos reconhecida teve um pré-requisito fundamental: a construção de um ambiente jurídico e regulatório minimamente previsível para quem opera nesse mercado. A reforma da Lei de Falências em 2005, os aprimoramentos subsequentes e, mais recentemente, os avanços na legislação de recuperação judicial criaram um framework que, mesmo imperfeito, reduziu significativamente a incerteza sobre prazos, hierarquia de credores e possibilidades de reestruturação. Sem esse chão regulatório, o risco jurídico tornava a precificação de créditos distressados uma tarefa próxima do impossível.
De acordo com Felipe Rassi, o crescimento do mercado secundário de créditos foi o segundo vetor de transformação. Quando bancos e instituições financeiras passaram a ceder carteiras problemáticas a fundos especializados com mais regularidade e transparência, criou-se liquidez suficiente para que o mercado desenvolvesse padrões de avaliação, metodologias de due diligence e referências de precificação. Esse ecossistema de informação, ainda em desenvolvimento, mas substancialmente mais robusto do que era há uma década, é o que permite que gestores tomem decisões com base em análise, não apenas em intuição.
O ambiente macroeconômico das últimas décadas também contribuiu de forma decisiva. Ciclos de alta inadimplência, seguidos de recuperação gradual, produziram casos concretos de investidores que compraram créditos deteriorados em momentos de pessimismo extremo e colheram retornos expressivos quando o ciclo virou. Esses casos documentados funcionam como prova de conceito para gestores que ainda encaravam o segmento com ceticismo, transformando narrativa em histórico verificável.
Quais perfis de investidor estão ativos nesse mercado?
O mercado de créditos estressados no Brasil passou por uma diversificação expressiva de perfis de participantes. Fundos de distressed debt com mandato específico para o segmento convivem hoje com gestoras multimercado que alocam parcela de seus portfólios em operações de crédito complexo, family offices que buscam exposição diferenciada e investidores institucionais estrangeiros que enxergam no Brasil uma relação risco-retorno atraente em comparação a mercados desenvolvidos, onde os spreads se comprimiram drasticamente.

Tal como destaca o empresário Felipe Rassi, cada perfil traz uma lógica de investimento distinta. Fundos especializados tendem a ser operadores ativos, que adquirem o crédito com intenção de participar da reestruturação e influenciar o desfecho. Gestoras generalistas frequentemente buscam posições mais líquidas com potencial de apreciação sem necessariamente precisar do controle operacional. Investidores estrangeiros muitas vezes chegam ao segmento por teses macroeconômicas sobre o ciclo de crédito brasileiro, com horizonte de saída definido e tolerância à volatilidade de curto prazo.
A dinâmica de retorno que justifica a complexidade operacional
Créditos estressados não são atraentes apesar da complexidade que carregam, são atraentes em parte por causa dela. A dificuldade de análise, a necessidade de expertise jurídica e financeira combinada e o prazo frequentemente longo até a realização do retorno funcionam como barreiras naturais de entrada que mantêm o número de participantes qualificados relativamente baixo. Quanto mais seleto o grupo de compradores competentes, maior a probabilidade de que o preço de aquisição ainda reflita um desconto significativo em relação ao valor recuperável, explica Felipe Rassi.
A estrutura de retorno desses ativos difere fundamentalmente da lógica de renda fixa convencional. Não há cupom periódico, não há prazo definido de vencimento e não há certeza sobre o valor de recuperação no momento da compra. O retorno é uma função da capacidade analítica de estimar o valor recuperável, da qualidade da estruturação jurídica da posição e da habilidade operacional de conduzir ou influenciar o processo de reestruturação. Quem domina essas três dimensões opera em uma categoria diferente de quem apenas consegue calcular uma das três.
Felipe Rassi finaliza salientando que o horizonte de tempo é uma variável frequentemente subestimada por quem olha para o segmento de fora. Processos de recuperação judicial, liquidação de garantias e reestruturação de passivos complexos transcorrem em prazos que raramente se comprimem abaixo de dois ou três anos e que podem se estender por muito mais tempo dependendo da complexidade e da jurisdição. Investidores com necessidade de liquidez de curto prazo simplesmente não têm perfil para esse mercado, independentemente de quão atraente seja o desconto na entrada.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez