A estética que dominou redes sociais perde espaço para combinações mais expressivas, coloridas e cheias de personalidade
A estética clean girl, marcada por visual minimalista, maquiagem discreta, roupas neutras e aparência cuidadosamente descomplicada, pode estar entrando em uma nova fase. Uma análise publicada pela Vogue em 8 de setembro aponta que as previsões para a primavera-verão 2027 indicam uma mudança importante no comportamento fashion: menos uniformidade estética e mais espaço para misturas, cores, referências nostálgicas e expressão individual. Entre as apostas aparecem o chamado “messy girl summer”, o gardening-core, silhuetas inspiradas em deusas modernas, transparências românticas e a volta do peplum. (Vogue)
Isso não significa que a clean girl tenha simplesmente desaparecido. O movimento indica, sobretudo, que o minimalismo deixou de ocupar sozinho o centro da conversa fashion. A nova temporada começa a valorizar produções mais pessoais e combinações menos previsíveis, em um momento em que o calendário internacional de moda entra em uma das fases mais importantes do ano. A New York Fashion Week de primavera-verão 2027 começa em 10 de setembro, seguida por Londres, Milão e Paris. (CFDA)
Por que a estética clean girl está perdendo força na moda
Durante os últimos anos, a estética clean girl se tornou um código visual facilmente reconhecível nas redes sociais. Cabelos alinhados, pele iluminada, maquiagem natural, peças básicas, bolsas discretas e uma paleta dominada por branco, bege, preto e tons suaves ajudaram a consolidar uma imagem de elegância aparentemente simples. Agora, a previsão apresentada pela Vogue para a próxima temporada aponta para uma reação a esse excesso de uniformidade, com propostas que estimulam combinações mais espontâneas e individualizadas. (Vogue)
O chamado “messy girl summer” resume bem essa mudança. A proposta trabalha com mistura de cores e estampas, sobreposições e uma aparência menos preocupada com a coordenação perfeita das peças. Em vez de buscar um conjunto visualmente impecável, a ideia é aceitar contrastes e referências diferentes. A publicação também identifica o gardening-core, com elementos inspirados em aventais, acessórios de ráfia e peças utilitárias, como uma das direções que devem ganhar força na primavera-verão 2027. (Vogue)
Outra aposta é o visual de “deusa moderna”, construído com tecidos leves, drapeados e acessórios ornamentados. Transparências românticas, vestidos delicados e uma estética associada ao universo da fantasia também aparecem entre as previsões, ao lado do retorno do peplum. O conjunto mostra que não existe necessariamente uma única tendência substituindo a clean girl: a principal mudança é justamente a multiplicação de referências disponíveis para quem quer construir uma imagem própria. (Vogue)
Essa transformação também pode ser observada no street style internacional. Durante a temporada de primavera 2027 em Copenhague, por exemplo, a Vogue registrou combinações com shorts esportivos usados com salto, florais românticos, vestidos com babados, cintos chamativos e outras misturas que aproximam peças de universos diferentes. A leitura reforça a ideia de que a moda contemporânea está menos interessada em uma fórmula única e mais aberta à combinação de códigos. (Vogue)
Para o consumidor brasileiro, essa mudança pode ser incorporada sem abandonar completamente o guarda-roupa minimalista. Uma bolsa diferente, um lenço estampado, um sapato marcante, uma peça colorida ou um acessório de inspiração vintage podem alterar a aparência de combinações básicas. Em vez de substituir todo o armário, a tendência permite acrescentar elementos de personalidade às roupas que já fazem parte da rotina.
Quais tendências devem ganhar espaço no lugar do visual minimalista
Entre as principais apostas para a primavera-verão 2027 está o retorno de elementos com maior impacto visual. A Vogue destaca o laranja como uma das cores de destaque da temporada, além do peplum, das transparências delicadas, dos drapeados e das referências ligadas à natureza. A combinação sugere uma moda mais interessada em cor, movimento, textura e identidade do que na aparência deliberadamente neutra associada à clean girl. (Vogue)
A nostalgia também aparece como uma força importante. Na coleção primavera 2027 da Donna Karan apresentada em Nova York, por exemplo, referências ao próprio arquivo da marca e à estética do fim dos anos 1990 foram usadas para construir novas silhuetas. A coleção incorporou rosa suave, saias longas, peças leves e elementos esportivos, mostrando como referências do passado podem ser reinterpretadas para o presente. (Vogue)
Isso ajuda a entender por que a próxima temporada não deve ser lida apenas como uma substituição de “minimalismo” por “maximalismo”. A mudança é mais ampla: peças clássicas podem continuar presentes, mas passam a dividir espaço com acessórios chamativos, estampas, volumes, transparências, referências vintage e combinações aparentemente improváveis. O resultado é um guarda-roupa em que a personalidade pode ter mais importância do que a adesão a uma estética fechada.
Para quem acompanha moda no Brasil, a adaptação também precisa considerar clima e rotina. Muitas imagens de passarela e street style internacional utilizam camadas, materiais ou proporções que não funcionam da mesma maneira em regiões de temperaturas elevadas. A solução pode estar em traduzir a tendência por meio de cores, acessórios, modelagens e tecidos leves, sem copiar literalmente uma produção criada para outro contexto climático.
O calendário internacional deve acelerar essa circulação de referências nas próximas semanas. A New York Fashion Week de primavera-verão 2027 acontece de 10 a 15 de setembro, segundo o Council of Fashion Designers of America (CFDA). Londres vem na sequência, de 17 a 21 de setembro; Milão acontece de 22 a 28 de setembro; e Paris encerra essa etapa entre 28 de setembro e 6 de outubro. (CFDA)
Isso significa que novas coleções, celebridades, influenciadores e imagens de street style devem multiplicar rapidamente as referências que chegarão às redes sociais e, posteriormente, ao varejo. Em outras palavras, a previsão divulgada agora pela Vogue pode ser apenas o começo de uma temporada de intensa disputa entre diferentes estéticas.
Como atualizar o guarda-roupa sem cair na armadilha das microtendências
A principal lição dessa mudança é que acompanhar moda não significa trocar o armário inteiro a cada temporada. A indústria brasileira tem uma cadeia extensa: a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) afirma que o setor têxtil e de moda reúne desde a produção de fibras até fiação, tecelagem, confecção, marcas e varejo e responde por mais de 1 milhão de empregos diretos. A entidade também mantém iniciativas voltadas à sustentabilidade e à redução das emissões do setor. (Liga Abit)
Nesse cenário, uma maneira mais inteligente de acompanhar tendências é identificar quais elementos realmente combinam com o estilo pessoal. Quem já possui um guarda-roupa neutro pode experimentar uma cor forte, uma estampa ou um acessório chamativo. Quem prefere uma estética romântica pode testar volumes, transparências ou detalhes delicados. Já quem gosta de referências utilitárias pode incorporar elementos do gardening-core. A tendência funciona melhor quando serve como ferramenta de expressão, e não como obrigação de compra.
A sustentabilidade também entra nessa equação. A velocidade das redes sociais pode fazer uma microtendência parecer indispensável durante algumas semanas e rapidamente substituível por outra. Em vez de acompanhar cada novidade, uma estratégia mais racional é identificar peças que tenham possibilidade de uso prolongado e acrescentar poucos elementos atuais. A própria Abit mantém uma iniciativa de descarbonização que reúne empresas do setor e estimula a mensuração e divulgação de emissões, mostrando como sustentabilidade e competitividade passaram a fazer parte da discussão da cadeia de moda brasileira. (Liga Abit)
Outra possibilidade é trabalhar com o que já existe no armário. Uma camisa branca pode ganhar outra leitura com uma saia colorida; uma calça de alfaiataria pode ser combinada com uma peça esportiva; um vestido neutro pode mudar completamente com acessórios de maior impacto. Essa lógica reduz a dependência de compras sucessivas e, ao mesmo tempo, permite experimentar a estética mais expressiva que começa a ganhar espaço.
A mudança também não precisa representar uma rejeição ao minimalismo. O visual clean pode continuar sendo uma preferência pessoal mesmo quando deixa de ser a estética dominante nas redes sociais. A moda não funciona como um calendário obrigatório em que uma tendência elimina automaticamente a anterior. O que muda é o repertório considerado atual e a quantidade de alternativas disponíveis para quem deseja experimentar.
A moda de 2026 e da primavera-verão 2027 parece caminhar, portanto, para uma fase em que personalidade e mistura ganham mais espaço. A clean girl não acabou, mas perdeu parte da exclusividade que teve como referência dominante. A nova temporada aposta em cores, nostalgia, acessórios, volumes, transparências, utilitários e combinações menos previsíveis. (Vogue)
Para o público brasileiro, a principal oportunidade está em adaptar essas referências à própria realidade, em vez de simplesmente copiar produções vistas nas passarelas ou nas redes sociais. O guarda-roupa mais atual não será necessariamente aquele que contém todas as novidades, mas aquele capaz de combinar peças já existentes com alguns elementos contemporâneos de maneira autêntica. Se a era clean girl ficou marcada pela busca de uma aparência cuidadosamente controlada, a próxima fase pode ser justamente sobre abrir espaço para mais criatividade e liberdade na hora de se vestir.
Fontes
- Vogue — “Bye Bye Clean Girl: 6 Trend Predictions for Spring/Summer 2027” (Vogue)
- CFDA — Calendário oficial da New York Fashion Week de setembro de 2026
- British Fashion Council — London Fashion Week setembro de 2026
- Camera Nazionale della Moda Italiana — Milano Fashion Week primavera-verão 2027
- Fédération de la Haute Couture et de la Mode — Paris Fashion Week primavera-verão 2027
- Abit — Liga de Descarbonização da indústria têxtil e de moda