Depois de anos dominado pelo visual minimalista e discreto, o universo da beleza passa por uma virada de comportamento em 2026.
A estética conhecida como clean girl, marcada por pele levemente maquiada e cabelos presos sem nenhum fio fora do lugar, perde espaço para produções mais expressivas e coloridas, um movimento que já aparece nos números do varejo global e também no desempenho do setor no Brasil.
Batons vibrantes e sombras coloridas em alta
Os números do mercado confirmam a mudança de rota. A britânica Space NK projeta crescimento de dois dígitos na categoria de cosméticos coloridos, dando continuidade ao aumento que já vinha ocorrendo ao longo de 2025. A tendência aparece com clareza nas buscas dos consumidores: de acordo com a agência de tendências de consumo Spate, as buscas por batons que deixam a boca manchada com efeito de película cresceram quase 390% entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, enquanto as buscas por máscaras de cílios em tom ameixa aumentaram cerca de 293% no mesmo período.
O movimento não se limita a um produto específico. Termos como maquiagem ousada e maquiagem divertida também registraram crescimento expressivo nas pesquisas do público, segundo a mesma agência, reforçando que o público busca personalidade depois de um longo ciclo de rostos padronizados e produções hiperpolidas.
Cabelos grisalhos ganham valorização nos salões
A mudança de comportamento também chegou ao universo capilar, mas por um caminho diferente do esperado. Em vez de esconder os fios brancos, cresce a procura por técnicas que realçam essa característica de forma natural. No salão do colorista Larry King, o serviço de cobertura de cabelos grisalhos representou 80% das consultas entre janeiro e dezembro de 2025, e as buscas pelo tema cresceram 73% desde dezembro de 2024, segundo dados da Spate.
A técnica combina mechas finas, luzes e tonalizantes para suavizar contrastes sem eliminar completamente o pigmento natural do cabelo, criando um resultado que parece intencional em vez de corretivo. É uma resposta direta ao cansaço com colorações pesadas e de manutenção constante, e reforça uma ideia que vem se repetindo em outras frentes da beleza: a de que o cabelo deve refletir quem a pessoa é agora, e não corrigir o que ela deixou de ser.
O Brasil como potência global de produtos capilares
Esse apelo por cabelo saudável e autêntico também tem espaço de destaque no desempenho da indústria brasileira. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, o setor de beleza e cuidados pessoais ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 1,061 bilhão em exportações em 2025, o melhor resultado desde o início da série histórica em 1997, um avanço de 20% em relação ao ano anterior. O segmento de produtos para cabelo foi o grande motor desse crescimento, somando US$ 301 milhões em vendas externas, alta de 29,8%, o que reforça a expertise brasileira em tratamentos capilares reconhecida internacionalmente.
O país também ocupa uma posição de destaque global nessa categoria: de acordo com a ABIHPEC, o Brasil detém 26% do mercado mundial de condicionadores para cabelo, o que significa que, a cada quatro unidades vendidas no planeta, uma sai do território nacional. Some-se a isso o desempenho de outras categorias em ascensão, como os óleos de tratamento capilar, que tiveram as vendas ampliadas em 68% somente em 2024, segundo a consultoria Nielsen.
Um mercado que cresce mesmo em meio à cautela do consumo
O Brasil também segue como o terceiro maior mercado consumidor de produtos de beleza e cuidados pessoais do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China, segundo o Panorama do Setor divulgado pela ABIHPEC em 2026. As projeções indicam crescimento médio de 7,2% ao ano para o setor, o que deve levar o faturamento a alcançar a casa dos US$ 40 bilhões até 2027, impulsionado pelo envelhecimento da população, pelo aumento do consumo da classe média e pela força crescente do comércio eletrônico no segmento.
Esse crescimento consistente ajuda a explicar por que tendências globais, como a virada em direção a makes mais ousadas e ao acolhimento dos cabelos grisalhos, encontram terreno fértil entre consumidores brasileiros, historicamente atentos a lançamentos e dispostos a testar novidades. Não à toa, cerca de 72% dos brasileiros afirmam que nunca deixariam de comprar cosméticos, segundo levantamento da Nielsen, o que torna o país um dos ambientes mais receptivos do mundo para esse tipo de mudança de comportamento.
Para quem monta a produção diária, a virada de 2026 abre espaço para experimentação sem a pressão de seguir um padrão único de rosto perfeito. Cores fortes nos olhos e nos lábios, cabelos com volume inspirado nos anos 1980 e uma relação mais tranquila com os fios brancos formam o retrato de uma beleza menos regrada e mais autoral, que já se reflete tanto nas passarelas internacionais quanto no comportamento de compra do consumidor brasileiro.
Fontes consultadas: Exame (com informações da Vogue Business) | ABIHPEC