Temporada masculina movimenta a moda mundial com trocas de comando em grandes marcas

Diego Rodríguez Velázquez
Diego Rodríguez Velázquez
Temporada masculina movimenta a moda mundial com trocas de comando em grandes marcas

Pitti Uomo, Milão e Paris recebem coleções verão 2027 marcadas por debuts de estilistas em casas como Hermès e Dior

 

A temporada de moda masculina primavera-verão 2027 abriu na quarta-feira, 17 de junho, em Florença, com a 110ª edição da Pitti Uomo, e segue por Milão e Paris até o fim deste mês. Em pouco mais de dez dias, as principais casas de luxo apresentam suas coleções masculinas, que chegam às lojas entre janeiro e março de 2027. O calendário acontece em um momento delicado para o setor, marcado por tensões geopolíticas no Oriente Médio e pelo aumento dos custos de combustível, fatores que pressionam o mercado de luxo em escala global. Em meio a esse cenário, várias marcas usam a temporada para consolidar novas direções criativas, com a chegada de estilistas a casas históricas. O resultado é uma temporada descrita por especialistas como um momento de transição e afirmação ao mesmo tempo.

Florença abre os trabalhos com debut de Simone Rocha dedicado aos homens

 

A largada do calendário ficou para a Pitti Uomo, realizada de 16 a 19 de junho na Fortezza da Basso, em Florença. Nesta edição, a feira reuniu 720 expositores de mais de 30 países, sendo 44% vindos do exterior, número ligeiramente superior ao registrado em janeiro, mas inferior ao de junho de 2025. O tema escolhido para a temporada foi batizado de The Pool, conceito assinado pelo editor-chefe da SSAW Magazine, Chris Vidal Tenomaa, ao lado de Tuomas Laitinen, construído em torno de reflexo, identidade e masculinidade contemporânea. A grande atração ficou por conta da estilista irlandesa radicada em Londres Simone Rocha, convidada de honra do evento, que apresentou na quinta-feira, 18 de junho, no Teatro della Pergola, seu primeiro desfile dedicado exclusivamente à moda masculina. A designer integra uma lista que já passou por nomes como Raf Simons, Grace Wales Bonner e Martine Rose.

A passagem por Florença também marcou estreias na agenda internacional, como a da japonesa DSM Kei Ninomiya, etiqueta própria da multimarcas Dover Street Market. Mais do que apresentações de roupas, a feira segue funcionando como termômetro de tendências de alfaiataria e acessórios, captadas no movimento dos visitantes pelos corredores históricos do complexo renascentista. Paralelamente aos desfiles, a programação reservou espaço para conversas sobre o futuro da manufatura italiana e internacional, reforçando o papel da Pitti como ponto de encontro entre compradores, imprensa especializada e marcas emergentes. A edição também serviu de prólogo para uma das mudanças mais comentadas da temporada: a chegada da estilista britânica Grace Wales Bonner à direção criativa da linha masculina da Hermès, sucedendo Véronique Nichanian após 37 anos no cargo, embora a estreia oficial da nova direção só deva ocorrer em janeiro de 2027.

Milão recebe o retorno de Thom Browne e a primeira coleção da Dolce & Gabbana sem Stefano Gabbana

 

De 19 a 23 de junho, o calendário seguiu para Milão, com 16 desfiles confirmados. A grande novidade da cidade foi a chegada de Thom Browne, que durante anos mostrou suas coleções em Paris e agora soma-se à programação italiana, com desfile marcado para a tarde de segunda-feira, 22 de junho. Também voltaram a desfilar em Milão a americana Ralph Lauren, que abriu a semana na Via San Barnaba no dia 19, e o britânico Paul Smith, que se apresentou na Viale Umbria no dia seguinte. A Prada, sob direção criativa de Miuccia Prada e Raf Simons, manteve-se como uma das atrações centrais da semana, enquanto a Dolce & Gabbana subiu à passarela pela primeira vez após a saída de Stefano Gabbana da presidência da marca, no início do ano.

A semana milanesa terminou com um capítulo simbólico para a Giorgio Armani: na noite de terça-feira, 23 de junho, a grife apresentou um desfile conjunto de moda masculina e da coleção feminina cruise, marcando a primeira vez que os diretores criativos Leo Dell’Orco e Silvana Armani assinaram juntos uma coleção da casa. Em contrapartida, o calendário milanês também registrou ausências notáveis: Gucci e Fendi optaram por unificar suas coleções masculinas e femininas em um único desfile em setembro, enquanto a Zegna apresentou sua nova coleção fora da agenda oficial, em evento próprio realizado em Los Angeles. Outras marcas escolheram revelar peças femininas e masculinas conjuntamente apenas na semana de moda feminina, reduzindo o número de grandes nomes do “made in Italy” presentes no calendário masculino tradicional.

Paris encerra o ciclo e mercado global do menswear segue em expansão

 

O calendário chega ao fim em Paris, com desfiles programados até 28 de junho. Entre as apresentações mais esperadas está a de Jonathan Anderson, que assina sua terceira coleção masculina para a Dior, casa em que assumiu a direção criativa em 2025. Julian Klausner, à frente da Dries Van Noten, também apresenta sua terceira coleção para a marca. Fora das passarelas tradicionais, a temporada parisiense reserva espaço para mudanças de comando em outras maisons: Sarah Burton revela os primeiros looks masculinos assinados por ela para a Givenchy, enquanto a Hermès opta por um formato de showroom durante o período de transição entre Véronique Nichanian e Grace Wales Bonner.

O momento também é acompanhado de perto pelo mercado. Estimativas do setor apontam que o segmento de moda masculina deve movimentar 713,6 bilhões de dólares em 2026, com projeção de superar 936 bilhões de dólares até 2033, trajetória que evidencia o quanto o menswear deixou de ser um nicho menos valorizado para se tornar um dos motores do mercado de luxo. Para marcas e investidores, a temporada funciona como um laboratório: é o momento em que se fecham pedidos de compra para as próximas coleções, se mapeiam movimentos estéticos antes que cheguem ao público em geral e se testam parcerias entre grifes tradicionais e tecidos sustentáveis, pauta que ganhou espaço crescente nas edições mais recentes da Pitti Uomo.

A temporada de verão 2027 confirma que o calendário masculino deixou de ser apenas um complemento da moda feminina e passou a concentrar parte das decisões estratégicas mais importantes da indústria do luxo. As trocas de comando em casas como Hermès, Dolce & Gabbana e Givenchy mostram um setor em transição, que busca equilibrar herança e renovação em um momento de incertezas econômicas. Para o consumidor brasileiro, esses desfiles funcionam como antecipação do que deve chegar às vitrines em 2027, da alfaiataria desconstruída às propostas mais sustentáveis. O próximo capítulo do calendário internacional já está marcado: em julho, Paris recebe a semana de alta-costura, reafirmando a cidade como centro simbólico da criação artesanal.

Fontes:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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